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Menina e Moça
 
text of translated passages

 

 

(These passages have been hand-transcribed by me, and there are certainly mistakes, even though I proofread everything twice. Corrections are welcome -- asterisks and brackets mark especially problematic passages.. The first page number refers to the Ribeiro edition of the text and the second refers to the corresponding passage in the French translation.)

 

At g mail dot com I am emersonj.

 

My interpretation of the book

 

Ribeiro and his book

 

Links and sources

 

Translation of the below

 

 

 

p. 1 / 35

Menina e moça me levaram de casa de meu pai para longes terras; qual fosse então a causa daquela minha levada, era pequena, não na soube. Agora nao lhe ponha outra, senão que já então parece havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui eu naquela terra; mas coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que longo tempo buscou e para longo tempo buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste, ou que pela ventura  me fez ser leda. Mas depois que eu vi tantas cousas trocadas per outros e o prazer feito mágoa maior, a tanta paixão vim, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha.

 

Escolhi para meu contentamento (se entre tristezas and saudades há algum) vir-me viver a esta monte, onde a lugar e míngua da conversação da gente fosse como para meu cuidado cumpria – porque grande erro fora depois de tantos nojos, quantos eu com estes meus olhos vi, venturar-me ainda esperarar do mondo o descanso, que ele nunca deu a ninguém – estando eu aqui só, tão longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras de um cabo, que se não mudam nunca, e de outro águas do mar, que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura, porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não leixamos em mim nada em que pudesse nova mágoa ter lugar.

 

*Antes havia muito tempo que é povoada de tristezas, e com razão. Mas parece que em desaventuras há mudanças para outras desaventuras, porque do bem não na havia para outra bem. E foi assim que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram ante os meus olhos apresentadas em cousas alheias todas mes angústias; e o meu sentido de ouvir não ficou sem sua parte de dor. Ali vi então na piedade que houve doutrem, camanha a devera ter de mim, se não fora tão demasiadamente mais amiga de minha dor do que parece que foi de mim quem me é causa dela; mas camanha é a razão porque sou triste, que nunca me veio mal nenhum, que eu não andasse em busca dele. Daqui me vem a mim a paracer que esta mudança, em que eu vi, já então começava a buscar, quando me este terra, onde me ela aconteceu, aprouve mais que outra nenhuma para vir aqui acabar os poucos dias de vida que eu cuidei me sobejavam,

 

Mas nisto, como em outras cousas muitos, me enganei eu. Agora há já dois anos que estou aqui, e não sei ainda tão sòmente determinar para quando me guardar a derradeira hora : não pode já vir longe. Isto me pôs em dúvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi. Mas depois, cuidando comigo, disse eu que arrecear de não acabar de escrever o que vi não era cousa para o leixar de fazer; pois não havia de escrever para ningum, senao para mim só.

 

Quanto mais que em cousas não acabadas não havia de ser nova: que quando vi eu prazer acabado, ou mal que tivesse fim! Antes me paraceu que este tempo que hei-de estar aqui neste ermo (como o meu mal aprouve) não o podia empregar em cousa que mais de minha vontade fosse, pois Deus quis que assim minha vontade seja, 

 

Se em algum tempo se achar este livrinho de pessoas alegres, não o leiam, que porventura parecendo-lhes que su casos serão mudáveis, como os aqui contados, o seu prazer lhes será menos prazer. Isto, onde eu estivesse, me doeria porque assaz bastava eu nascer para minhas mágoas, e não ainda as de outrem.

 

Os tristes o poderão ler; [*mas aí não os houve mais homens depois que nas mulheres houve piedade; mulheres sim, porque sempre nos homens houve desamor.*]  Mas para elas não no faço eu. Que pois o seu mal é camanho, que se não pode conformar con outro nenhum para as mais entristecer, sem razão seria querer eu que o lessem elas; mas antes lhes peço muito que fujam dele e de todas as cousas de tristeza, que ainda com isto poucos serão os dias que hão-de poder ser ledas: porque assim está ordenado pela desaventura com que elas nascem. 

 

p. 5 / 38

Bem sei eu que não era para isto * a que me eu ora quero pôr, que o escrever alguma cousa pede muito repouso; e a mim as minhas mágoas ora me levam para um cabo, ora para outro; trazem-me assim, que me é forcado tomar as palavras que me elas dão, porque não sou tão constrangida a servir a engano, como a minha dor. Destas culpas me acharão muitas neste livrinho, mas da minha ventura foram elas. Ainda que quem me manda a mim olhar por culpas, nem por desculpas? O livro há-de ser do que vai escrito nele. Das tristezas não se pode contar ordenadamente, porque desordenadamente acontecem deles.

 

p. 17 / 48

 

Isto é assaz para os tristezas das mulheres, que nao têm remédios para o mal, que os homens têm; porque, nesse pouco tempo que há que eu vivo, tenho aprendido que não há tristezas nos homens; só as mulheres são tristes: que as tristezas quando viram que os homens andavam de um cabo para outro, e, como as mais de cousas, com as contnuas mudanças ora se espalhavam, ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhes tolhiam o mais do tempo, torneram-se ás coitadas de mulheres, ou porque aborreceram as mudanças, ou porque elas não tinham para onde lhes fugir.

 

pp. 18 / 48

Quando eu era da vossa idade e estava em casa de meu pai, nos longos serões das espaçosas noites do Inverno, entre as outras mulheres de casa, delas fiando e outras dobando, muitas vezes para enganarmos o trabalho ordenávamos que alguma de nós contasse historias, que não leixassem paracer o serão longo. E uma mulher de casa já velha, que vira muito e ouvira muitas cousas, por mais anciã, dizia sempre que a ela pertenecia aquele ofício; e então contava historias de cavaleiros andantes. E verdadeiramente as afrontas e grandes aventuras, que ela contava a que se eles punham pelas donzelas, me faziam a mim a mim haver dó deles. Que cuidava eu que um cavaleiro, apostamente armado sobre seu formosa cavalo, pela ribeiro de um rio de gracioso campo passeando, podia ir tão triste como uma delicada donzela, em alto aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só, posia estar, vendo-se de altos muros cercada e tantas guardas, feitas para tão pequena forca; mas para lhe tolheram as vontades fizeram grandes defensas e para lhe entrar o nojo muito pequenas. Mais maneiras têm os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que são; e mui menos têm as donzelas para se mostrarem mais que paracerem aos homems. Ao menos se eu depois soube muitos cousas pudera tornar atrás, menos me houveram de magoar do que magoarem.

 

p. 22 / 50

[A] vós não vós devem lágrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares sós come estes donde estais, que já em outro tempo dizem que foram cheios de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas, e ainda agora por aqui, a lugares, acham moças que guardam gado pedaços de armas e jóias de grande valia, o que parece que faz este vale de mais triste sombra que outra nenhum. Não sei este deconcerto de mundo onde há-de ir ter; um tempo foram estes vales mui povoados, e agora muito desertos; soiam gentes andar neles, agora andam alimárias feras; uns leixam o que outros tomam! Para que eram tantas mudanças em uma só terra? Mas parece que também a terra se muda, como as coisas dela: e esta porque passou o tempo de quando foi leda, veio estes de quando havia de ser triste.

 

pp. 64 / 84

 

A terra é abastada de pastos, e assim como cria o bom, cria o mau. E já ouvi dizer un grande homem que era dado às cousas do outro mundo, falando na povoacão deste terra (que ainda que a vedes assim por partes metida a mato, é de pastores em muita maneira povoada) que esta era um das maravilhas da natureza, de uma terra mesma nasceram duas tão contrárias uma a outra.  E que isto não era só nas alimárias, mas nos homens: que não há maus senão onde há os bons, e não ha ladrões senao onde há que furtar.

 

 p. 71 / 88 

 

[Q]ue até agora  me sóia eu andar espantada de mim comigo como podia durar tanto uma dor, depois que acabada a causa dele, e como a não gastava o tempo como as outros cousas que nele há.

 

p. 115/121 Assim ela pouco a pouco foi-se avezando a viver doutra maneira, que as ocupações da casa e a desconfiança ou desesperança que foi tendo de Bimnarder lhe fizeram indo nas cousas passadas uma sombra de esquecimento, em que ela pudera viver toda-las horas de sua vida descansada ou menos cansada, se em alguma cousa deste mundo houvera segurança. Mas não na há: que mudança possui tudo.

 

 

 

All original material copyright John J. Emerson 

 

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